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Mamirauá 1994

Updated: Feb 20





No ano de 1994, em Mamirauá, centro do Amazonas, fui fazer um trabalho para uma TV japonesa. Era a primeira transmissão via satélite, do centro do amazonas, em que os repórteres falavam com a astronauta Chiaki Mukai no espaço, isso tudo transmitido ao vivo para o Japão. Era uma equipe grande com muitos equipamentos. Morávamos em barcos (recreio) e o meu trabalho era de caboman. Eu tinha 17 anos e estava deslumbrado com tudo aquilo. Depois que terminamos o trabalho, ficamos alguns dias desmontando tudo. Um dia antes de irmos embora, esse menino veio e pediu que alguém tirasse uma foto do seu irmão. No começo, ninguém deu muita importância e continuamos o que estávamos fazendo. O garoto, insistente, falou com o ajudante do barco. O ajudante falou que o irmão dele tinha morrido e a família gostaria de ter uma foto do pequeno cadáver. Todos ficamos chocados com aquela informação. Eu me voluntariei para ir tirar a foto. Confesso que na ocasião eu não tinha muita empatia, fui pela aventura. Entrei na canoa e ele me levou para sua casa. Chegando lá, desci da canoa em uma casa flutuante. Era uma casa pequena de dois cômodos, havia umas 10 pessoas mais ou menos. A mãe estava perto do bebê morto. Ela não estava chorando, mas o clima estava pesado pela tristeza. O bebê era muito novo, provavelmente não tinha 1 ano. O menino que me levou até lá avisou que eu poderia tirar a foto. Saquei minha Canon (saboneteira) e tirei. Fiz o sinal da cruz e fui saindo devagar, um senhor veio, pegou na minha mão e agradeceu. Entrei na canoa novamente e o menino me levou de volta pro barco. Eu desembarquei e me despedi dele. Era uma época em que a comunicação não era tão simples. Eu precisaria terminar de bater as fotos restantes, para acabar com o filme, depois votar para São Paulo, revelar e separar a foto do irmãozinho. Para só depois voltar para Mamirauá, que era uma reserva com várias restrições e entregar a foto. A família que me pediu a foto sabia que era quase impossível eu voltar para entregar uma cópia. Mas acho que de alguma forma era um consolo saber que o pequeno cadáver tinha uma imagem registrada.



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